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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

O CÂNON JUDAICO E OS APÓCRIFOS

O CÂNON JUDAICO E OS APÓCRIFOS

por Willian Webster


Introdução
Antes de adentrarmos ao assunto propriamente dito, convêm determinar a terminologia bíblica que os escritores do NT aplicavam ao corpo de literatura judaica aceita. Isto é importante para descobrirmos o cânon da Bíblia hebraica antes do início da Igreja cristã primitiva porque, como diz Paulo, "aos judeus foram confiados os 'oráculos de Deus" (Rom. 3:2). Isto é uma declaração importante indicando que havia um cânon divinamente inspirado e autorizado pela nação Judaica. É importante identificarmos quais são esses livros e sua autoridade porque unicamente esses livros que são verdadeiramente 'os oráculos de Deus' é que podem ser usados pela Igreja. 
A pergunta que se faz é: o termo, 'os oráculos de Deus,' refere-se a um corpo reconhecido de escritos com um número específico e fixo de livros , ou era um cânon ainda aberto? 
Os católicos romanos sustentam que o cânon dos judeus estava aberto e de fato, veio incluir os livros apócrifos. Para sustentar este ponto de vista geralmente apontam para dois eventos históricos principais. O primeiro é o Concílio de Jamnia realizado entre 75 e 117 d.C. Este concílio fora presidido por líderes judaicos que estiveram alegadamente a responsabilidade para oficialmente fechar o cânon das Escrituras Sagradas judaicas. O segundo, é a utilização da septuaginta pelos judeus de Alexandria , a tradução Grega das Sagradas Escrituras hebraica. Os católicos afirmam que os judeus de Alexandria incluíram os Apócrifos junto com os outros livros como seu cânon, isto porque, os manuscritos mais antigos que nós possuímos da Septuaginta contêm alguns dos livros apócrifos.
Então na visão católica existiam dois cânones; um mais extenso chamado de "cânon alexandrino" usado pelos judeus helenistas em Alexandria e pela igreja primitiva e outro mais restrito conhecido como "cânon palestinense" usado pelos judeus da Palestina. 
Os protestantes evangélicos rejeitam esses argumentos porque eles são uma distorção dos fatos. As evidências indicam que na época do NT, o cânon da Bíblia hebraica consistia de um número preciso de livros e foram agrupados segundo uma estrutura específica, provando que o corpo canônico destes livros havia sido fechado bem antes de Cristo. O que não falta são testemunhas quanto ao número e a estrutura dos livros do cânon o que é confirmado por muitas fontes independentes, incluindo:

1. Jesus e o Novo Testamento
2. Os próprios apócrifos
3. Os pseudepígrafos
4. Philo de Alexandria
5. Josefo
6. Os Fariseus e Essênios 
7. A tradução grega da Bíblia hebraica de Áquila 
8. Os Pais da Igreja
9. A literatura rabínica

O Testemunho de Jesus e o Novo Testamento
Assim como Paulo se referiu às Sagradas Escrituras do Velho Testamento em um sentido geral como 'os oráculos de Deus,' Jesus também se referia ao Velho Testamento em termos gerais. Isto prova que Jesus e os apóstolos tiveram em mente uma quantidade certa de livros que estavam incluídos sob aqueles títulos gerais. Por exemplo, Jesus referiu ao VT como a "Lei de Moises e os Profetas". A 'Lei de Moises' foi universalmente entendida como se referindo aos primeiros cinco livros da Bíblia conhecidos como Pentateuco a saber: Gênesis, Êxodo, Levitico, Números e Deuteronômio. Quando Lucas registra o diálogo entre Jesus e os discípulos na estrada de Emaús, ele usa a seguinte expressão: 'E começando por Moisés e por todo os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras." (Lucas 24:27). Outra vez nós encontramos aqui descrições gerais. "Moisés e os Profetas" são logo a frente chamados de 'Escrituras'. "Moisés e os Profetas" compreendem um conjunto específico de livros. Outros títulos utilizados para representar os livros do VT como uma coleção de livros sagrados são: 'a Lei,' 'a Lei e os Profetas,' 'as Escrituras Sagradas' e 'a Palavra de Deus.' Esses títulos gerais confirmam que aquela classe de livros foram recebidos como Escrituras Sagradas. Quando um judeu utilizava o termo - 'os Profetas' - todos sabiam que livros ele tinha em mente. Isto com certeza foi o caso de Paulo quando utilizou o termo 'os oráculos de Deus'. Enquanto Jesus referiu às Sagradas Escrituras em termos gerais, ele também freqüentemente especificou alguns livros particulares que ele considerou inspirados. Por Exemplo, depois da leitura do livro do profeta Isaías na sinagoga ele disse, 'Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos" (Lucas. 4:21). Ele ainda citou Salmos (Mc. 12.10), Deuteronômio (Mt. 4:4,7,10), Isaias e Jeremias (Lucas 19.46) e Zacarias (Mc. 14:27).
Isto deixa claro que quando Jesus se referia ao termo "Sagradas Escrituras" ou "Escritura", ele tinha um conjunto específico de livros em mente. Jesus e os apóstolos aceitaram o cânon autorizado estabelecido pelos Judeus, isto é, ao povo judeu que Deus tinha usado para produzir as Escrituras. 
Podemos deduzir outra prova pelo fato de Jesus nunca ter discutido com os judeus de seu tempo (Fariseu, Saduceus) sobre os limites das Sagradas Letras. Apesar de sabermos que havia uma tensão teológica entre tais grupos e estes e Jesus, contudo o mesmo cânon era aceito por ambos.
Agora, se nós sabermos qual tipo de cânon que Jesus utilizava então saberemos que livros são os verdadeiros 'oráculos de Deus.' e saberemos também qual cânon é autorizado para a igreja cristã. 

A Estrutura do Cânon Hebraico
Como podemos perceber, historicamente, a estrutura do cânon hebraico não era fixa. Jesus não deixou nenhuma lista de livros inspirados do VT, mas seguindo a visão judaica tradicional de estruturar o cânon, ele referiu às Sagradas Escrituras pela divisão tripla, "Lei de Moisés, os Profetas e os Salmos". O termo "Salmos" era outra maneira de referir à terceira categoria do cânon hebraico comumente conhecido como Escritos ou Hagiógrafos, de que os Salmos assegurava um lugar de proeminência. Assim, se nós pudermos determinar que livros compreendem cada uma destas três divisões, nós saberemos que livros Jesus acreditava ser inspirados. 
Lembrando que Jesus não é o único a se referir a esta tríplice divisão, há muitas testemunhas adicionais que provam que esta não era somente uma opinião pessoal do Mestre, mas a tradição da nação Judaica como um todo. Há uma validação histórica para esta classificação tripla, a saber: o livro apócrifo de Eclesiástico; o historiador Judaico Josefo; o filósofo judaico alexandrino Filo; o pai da Igreja Jerônimo e a literatura rabínica. 
Obs: a expressão "a lei e os profetas" cobria as três divisões "a Lei, os Profetas e os Salmos". As vezes os Salmos era colocado na categoria da Lei (João 10.34).
Eclesiástico - O prólogo da tradução Grega de Eclesiástico, escrito cerca de 130 a.C, pelo neto de Jesus ben Sirah, atesta:
"Pela Lei, pelos Profetas e por outros escritores que os sucederam, recebemos inúmeros ensinamentos importantes...Foi assim que após entregar-se particularmente ao estudo atento da Lei, dos Profetas e dos outros Escritos, transmitidos por nossos antepassados..." 
Pelo que parece para este escritor há três grupos de livros que têm uma autoridade única em seu tempo, e que seu avô escreveu depois deles ganhando grande fama como seu intérprete e não como seu rival. O tradutor explicitamente distingue o 'algo' ( o livro de Eclesiástico) da 'Lei, os Profetas e os outros escritos.' O autor separa o livro de Eclesiástico das Sagradas Escrituras, não o inclui no cânon. 
Josefo - Outra testemunha da divisão tríplice do cânon hebraico é Josefo, Fariseu e historiador judaico que testemunhou a queda de Jerusalém em 70 a.D. Em Contra Apionem ele escreve: 
"Não temos dezenas de milhares de livros, em desarmonia e conflitos, mas só vinte e dois, contendo o registro de toda a história, os quais, conforme se crê, com justiça, são divinos." Depois de referir-se aos cinco livros de Moisés, aos treze livros dos profetas, e aos demais escritos (os quais "incluem hinos a Deus e conselhos pelos quais os homens podem pautar suas vidas"), ele continua afirmando: 
Desde Artaxerxes (sucessor de Xerxes) até nossos dias, tudo tem sido registrado, mas não tem sido considerado digno de tanto crédito quanto aquilo que precedeu a esta época, visto que a sucessão dos profetas cessou. Mas a fé que depositamos em nossos próprios escritos é percebida através de nossa conduta; pois, apesar de ter-se passado tanto tempo, ninguém jamais ousou acrescentar coisa alguma a eles, nem tirar deles coisa alguma, nem alterar neles qualquer coisa que seja. [5] 
Josefo é suficientemente claro. Como historiador judeu, ele é fonte fidedigna. Eram apenas vinte e dois os livros do cânon hebraico agrupados nas três divisões do cânon massorético. E desde a época de Malaquias (Artaxerxes, 464-424) até a sua época nada se lhe havia sido acrescentado. Outros livros foram escritos, mas não eram considerados canônicos, com a autoridade divina dos vinte e dois livros mencionados. 
Filo - um judeu alexandrino do século primeiro, em sua obra, De Vita Contemplativa (25), também testemunha divisão tripartida do cânon do VT. 
É interessante saber que Filo mesmo procedente de Alexandria nunca citou um livro sequer dos apócrifos. Possivelmente ele teve contato com a Septuaginta, mas não citou um livro dela em suas obras, apesar de citar vários outros do VT. 
Jerônimo - foi o tradutor da Vulgata Latina, a Bíblia oficial do catolicismo. Ele estudou vários anos na Palestina com mestres hebraicos e após retornar escreveu no prefácio dos livros de Samuel e Reis da Vulgata sobre a tríplice divisão do cânon judaico como a Lei, os profetas e os Hagiógrafos. 
Bíblia católica - na página 15 da Bíblia católica versão dos Monges de Maredsous da editora Ave Maria sob o subtítulo "Introdução - A Bíblia em Geral" confirma esta tríplice divisão hebraica sem os livros apócrifos:
"É sumamente útil lembrar como foi feita cada uma dessas coleções. A coleção dos livros do Antigo Testamento originou-se no seio da comunidade dos judeus que a foram ajuntando no decorrer de sua história. Dividiram-na em três partes:
1. A Lei (Torá), contendo cinco livros (chamados mais tarde de o Pentateuco que significa os cinco volumes), forma o núcleo fundamental da Bíblia. Esses cinco livros são: Gênese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
2. Os Profetas. Os judeus abrangiam sob esse título não somente os livros hoje são denominados Profetas, mas também a maioria dos escritos que hoje costumamos chamar de Livros Históricos.
3. Os Escritos. Os judeus designavam por esse nome os seguintes livros: Salmos, Provérbios, Jó, Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras e Neemias e as Crônicas.
É a essa divisão que se refere o divino Mestre quando mais de uma vez (p. ex. Mt 22,40) falou da "Lei e os Profetas". 
Essa coleção já estava terminada no segundo século antes da nossa era.
Nessa mesma época os judeus já estavam, em parte, dispersos pelo ido. Uma importante - colônia judaica vivia então no Egito, nomeadamente em Alexandria, onde se falava muito a língua grega. A Bíblia foi então traduzida para o grego. Alguns escritos recentes foram-lhe acrescentados sem que os judeus de Jerusalém. os reconhecessem como inspirados. São os seguintes livros: Tobias e Judite, alguns suplementos dos livros de Daniel e de Ester, os livros da Sabedoria e do Eclesiástico, Baruc e a Carta de Jeremias, que se lê hoje no último capítulo de Baruc. A Igreja Cristã admitiu-os como inspirados da mesma forma que os outros livros.
No tempo da Reforma, os protestantes, depois de terem hesitado por um tempo, decidiram não mais admiti-los nas suas Bíblias, pelo simples de não fazerem parte da Bíblia hebraica primitiva. Daí a diferença que há ainda hoje entre as edições protestantes e as edições católicas da Bíblia. Quanto ao Novo Testamento não há diferença alguma." [até aqui o comentário da bíbla católica] 
É interessante notar que este comentário declara que a Bíblia foi formada na comunidade judaica na palestina e não em Alexandria no Egito. Portanto, a formação do cânon ou seu fechamento é de competência dos judeus da Palestina.
Outrossim, após confirmar a tríplice divisão do cânon hebraico ele alista somente os livros aceitos pelos judeus e protestantes e deixa de fora os apócrifos, dizendo que esta era a lista de livro as quais Jesus se referia como "A Lei e os Profetas" em Mateus 22.40.
E conclui declarando que "Essa coleção já estava terminada no segundo século antes da nossa era". Portanto, até mesmo os comentaristas de uma Bíblia católica confirma a fixação do cânon e sua tríplice divisão com apenas 22 livros bem antes do 1º século.
Mackenzie - outro biblista católico que confirma a tríplice divisão do cânon hebreu é John L. Mackenzie em seu "Dicionário Bíblico" pág. 141, assegura:
"No Novo Testamento, podemos ver que Jesus e os apóstolos aceitaram uma coleção de livros sagrados, juntamente com os hebreus. E os títulos por eles usados correspondem à tríplice divisão dos livros hebraicos." 
Em adição, a literatura Rabinica também falou de uma divisão tripla do VT. O Talmud babilônico (14) de Baba Bathra referi a esta divisão.

O Número de Livros do cânon Hebreu
Apesar da estrutura do cânon ser um pouco flexível o mesmo não se dava com os livros que compunham a Bíblia hebraica, os quais eram fixo em número de vinte e dois ou vinte e quatro dependendo de como eram arranjados. Isto porque às vezes Rute era anexado ao livro de juízes e Lamentações ao de Jeremias, perfazendo um total de vinte e dois. Quando colocados separadamente o número subia para vinte e quatro. Todavia, o número de vinte e dois é atestado por inúmeras testemunhas. Uma destas testemunhas como já vimos é Josefo. 
"Não temos dezenas de milhares de livros, em desarmonia e conflitos, mas só vinte e dois..."
Josefo não só deu o número de vinte e dois, mas reconheceu que somente estes eram aceitos pelo seu povo como canônico. Perceba que ele não deu uma opinião pessoal dele, mas colocou a questão de modo geral. A importância deste seu testemunho é maior ainda por que com certeza sendo um judeu helenista que falava o grego era impossível não conhecer a versão da Septuaginta. Assim, ainda que ele houvesse utilizado a versão grega, ele cita unicamente o cânon palestinense. E lembrando que Filo de Alexandria, também, possivelmente, conhecia ou manuseava a Septuaginta, mas não há prova que alguma vez houvesse citado um sequer dos apócrifos. Isso prova que não é porque alguém usou a Septuaginta que forçosamente terá que admitir o cânon mais extenso que incluía os apócrifos. E isso serve como resposta às objeções católicas de que Jesus e os apóstolos aceitaram os apócrifos por terem utilizado a versão dos Setenta.
A antiga obra pseudepigrafa, "Jubileus", encontrada entre a comunidade dos Essênios em Qumran, também numera os livros do VT em vinte e dois. Esta talvez seja a testemunha mais antiga quanto ao número de livros que compreendia o cânon hebraico, antecipando a Josefo. 
Junto a estes temos um grande número de pais da igreja primitiva que citaram a numeração tradicional judaica (22 livros) para o cânon hebreu. Orígenes, que tinha contato com os escritos judaicos escreveu que o número de livros canônicos era vinte e dois. Ele preparou em 240 d.C; uma edição do VT em seis colunas, a famosa Héxapla, assim distribuídas: 1ª coluna, o texto hebraico; 2ª transliteração do texto hebraico em caracteres gregos; 3ª tradução grega literal ; 4ª tradução grega idiomática de Símaco; 5ª a Sepuaginta; 6ª tradução grega de Teodócio. 
Outros pais que listaram o número de livros como vinte e dois foram Hilario de Poitiers, Cirilo de Jerusalem, Atanasio, Epifanio, (que morou na Palestina), Gregorio de Nazianzeno, Basílio, o Grande, Rufino, e Jerônimo. 
Novamente o estudioso católico nos confirma dizendo:
"A aceitação dos livros sagrados tal como se encontravam na versão da LXX foi partilhada por todos os escritores eclesiásticos dos primeiros três séculos d.C., exceto Melítão de Sardes (1- por volta de 193 d.C.), que cita o cânone hebraico. A existência de uma diferença entre o cânone hebraico e a LXX é mencionada por Orígenes (t 254), que afirma o direito dos cristãos a usarem os livros deuterocanônicos, mesmo não sendo eles aceitos pelos hebreus. O mesmo cânone é encontrado em todos os cânones oficiais: o Cânone de Cheltenham (por volta de 350) e os cânones de Hipona (393), Cartago (397) e de Inocêncio 1 (405). A única exceção é o Cânone de Laodicéia (360).
Por isso, é dificil explicar como foi que alguns Padres do século IV retornaram ao cânone hebraico, rejeitando explicitamente os livros deuterocanônicos: Atanásio (t 373). Cirilo de Jerusalém (t 386), Hilário de Poitiers (1- 366), Jerônimo (t .420), Rufino (t 410) e Gregório Nazianzeno (1- 390). A origem dessa opinião pode ser encontrada em Jerônimo e seus estudos com os hebreus. Talvez a mesma influência hebraica tenha ocorrido em outros. Com efeito, essa opinião apareceu no Oriente e naqueles Padres latinos que viveram durante muito tempo no Oriente. Era tal a autoridade desses Padres que sua opinião sobreviveu nos círculos cultos até o século XVI, embora o Concilio de Florença (1441) houvesse retomado o cânone alexandrino." (Mckenzie pág. 142) 
A literatura Rabinica Talmudica (Baba Bathra) deu a listagem como vinte e quatro. Este escrito é considerado como uma antiga tradição entre os judeus e dá uma identidade precisa somente daqueles vinte e quatro livros.
Áquila, que se apostatou da fé cristã e posteriormente se tornou prosélito judaico, sob a tutela dos rabinos R. Elezer e R. Joshua, ou até mesmo de R. Akiba é outra importante testemunha do primeiro século sobre o número de livros do cânon hebreu. Foi ele quem traduziu o VT hebraico para o grego. Os judeus haviam se desinteressado pela Septuaginta por causa de seu uso pelos cristãos. Aquila ficou responsável por fazer essa nova versão para os judeus que não entendiam mais o hebraico. A versão de Áquila contem apenas os vinte e quatro livros da coleção tradicional atestado pelo Talmud.

A Identidade dos livros canônicos dos Hebreus
O cânon judaico não só incluía uma clara divisão tripla como um número específico de livros (22). Resta-nos saber então qual era a identidade destes 22 livros. Obviamente, se Josefo e outros podiam dizer que o cânon consistia de apenas vinte e dois ou vinte e quatro livros eles de fato sabiam que livros eram estes. A pergunta é: pode um cânon limitado de vinte e dois ou vinte e quatro livros incluírem os apócrifos? Os fatos históricos apontam um uníssono não.
A identidade destes livros pode ser deduzida do comentário de Josefo. Seu testemunho é a evidência mais antiga que nós possuímos dos livros do cânon hebreu do VT. Ele limita a época em que tais obras foram produzidas:
"Temos somente vinte e dois que compreendem tudo o que se passou, e que se refere a nós, desde o começo do mundo até agora, e aos quais somos obrigados a prestar fé. Cinco são de Moisés, que refere tudo o que aconteceu até sua morte, durante perto de três mil anos e a sequência dos descendentes de Adão. Os profetas que sucederam a esse admirável legislador, escreveram em treze outros livros, tudo o que se passou depois de sua morte até o reinado de Artaxerxes, filho de Xerxes, rei dos persas e os quatro outros livros, contêm hinos e cânticos feitos em louvor de Deus e preceitos para os costumes. Escreveu-se também tudo o que se passou desde Artaxerxes até os nossos dias, mas como não se teve, como antes, uma sequência de profetas não se lhes dá o mesmo crédito, que aos outros livros, de que acabo de falar e pelos quais temos tal respeito, que ninguém jamais foi tão atrevido para tentar tirar ou acrescentar, ou mesmo modificar-lhes a mínima coisa. Nós os consideramos como divinos, Chamamo-los assim; fazemos profissão de observá-los inviolavelmente e morrer com alegria se for necessário, para prová-lo. Foi isso que fez morrer um tão grande numero de escravos de nossa nação em espetáculos dados ao povo, tantos tormentos e tantas mortes diferentes, sem que jamais se pudesse arrancar de sua boca uma única palavra contra o respeito devido às nossas leis e às tradições de nossos antepassados."
Os livros escritos depois de Artaxerxes (época do profeta Malaquias), afirma Josefo, "...não se lhes dá o mesmo crédito, que aos outros livros, de que acabo de falar e pelos quais temos tal respeito..."
Ora, as datas dos livros apócrifos surgem exatamente depois do profeta Malaquias no período interbíblico, ou 400 anos que Deus ficou sem falar através de profetas. 
Para Josefo os livros autorizados foram produzidos entre a época de Moisés (com seus escritos) e Artaxerxes (época do profeta Malaquias). 
Jerônimo (340-420), o grande teólogo bíblico do início do período medieval e tradutor da Vulgata latina, rejeitou explicitamente os apócrifos como parte do cânon. Ele disse que a igreja os lê "para exemplo e instrução de costumes", mas não "os aplica para estabelecer nenhuma doutrina" (Prefácio do Livro de Salomão da Vulgata, citado em Beckwith, p. 343). Na verdade, ele criticou a aceitação injustificada desses livros por Agostinho. A princípio, Jerônimo até recusou-se a traduzir os apócrifos para o latim, mas depois fez uma tradução rápida de alguns livros. Depois de descrever os livros exatos do AT judaico [e protestantel, Jerônimo conclui:
"E então no total há 22 livros da Lei antiga [conforme as letras do alfabeto judaico],isto é, 5 de Moisés, 8 dos Profetas e 9 dos hagiógrafos. Apesar de alguns incluírem [...] Rute e Lamentações no hagiógrafo, e acharem que esses livros devem ser contados (separadamente) e que há então 24 livros da antiga Lei, aos quais o Apocalipse de João representa adorando ao Cordeiro por meio do número de 24 anciãos [...] Esse prólogo pode servir perfeitamente como elmo (i.e., equipado com elmo, contra atacantes) de introdução a todos os livros bíblicos que traduzimos do hebraico para o latim, para que saibamos que os que não estão incluídos nesses devem ser incluídos nos apócrifos" (ibid., grifo do autor).
No prefácio de Daniel, Jerônimo rejeitou claramente as adições apócrifas a Daniel (Bel e o Dragão e Susana) e defendeu apenas a canonicidade dos livros encontrados na Bíblia hebraica, escrevendo:
"As histórias de Susana e de Bel e o Dragão não estão contidas no hebraico [.11 Por isso, quando traduzia Daniel muitos anos atrás, anotei essas visões com um símbolo crítico, demonstrando que não estavam incluídas no hebraico [...] Afinal, Orígenes, Eusébio e Apolinário e outros clérigos e mestres distintos da Grécia reconhecem que, como eu disse, essas visões não se encontram no hebraico, e portanto não são obrigados a refutar Porfírio quanto a essas porções que não exibem autoridade de Escrituras Sagradas" (ibid., grifo do autor).
A sugestão de que Jerônimo realmente favorecia os livros apócrifos, mas só estava argumentando que os judeus os rejeitavam, é infundada. Ele disse claramente na citação acima que: "não exibem autoridade de Escrituras Sagradas", e jamais retirou sua rejeição dos apócrifos. Ele afirmou na obra Contra Rufino, 33, que havia "seguido o julgamento das igrejas" nesse assunto. E sua afirmação: "Não estava seguindo minhas convicções" parece referir-se às "afirmações que eles [os inimigos do cristianismoi estão acostumados a fazer contra nós". De qualquer forma, ele não retirou em lugar algum suas afirmações contra os apócrifos. Finalmente, o fato de que Jerônimo tenha citado os livros apócrifos não é prova de que os aceitava. Essa era uma prática comum de muitos pais da igreja. Ele afirmou que a igreja os lê "para exemplo e instrução de costumes" mas não "os aplica para estabelecer qualquer doutrina".

Apesar das declarações de Agostinho sobre os apócrifos serem ambíguas (assim como o resto de sua teologia) ele reconheceu que os judeus não aceitavam esses livros como parte do cânon. (Cidade de Deus 19.36-38)
Como exemplo ele cita o livro dos Macabeus dizendo que era "tido por canônicos pela Igreja e por apócrifo para os judeus. A igreja assim pensa por causa dos terríveis e admiráveis sofrimentos desses mártires..." (ibdem 18.36). É obvio que esse é um critério muito fraco para justificar sua canonização.
Agostinho não era autoridade em grego ou hebraico como era Jerônimo e por isso foi mais facilmente levado a crer na autoridade dos apócrifos. Também havia uma crença corrente a respeito de uma lenda de como a Septuaginta fora traduzida de forma milagrosa por setenta escribas. Por certo Agostinho acreditava nessa lenda e por isso era relutante em excluir os livros apócrifos do cânon. Como sua versão era a Antiga Latina que por sua vez fora traduzida da Septuaginta ele considerava os apócrifos canônicos. Mesmo assim quando um de seus adversários apelou para o livro apócrifo de II Macabeus, respondeu que sua causa era deveras fraca se tivesse que recorrer a um livro que não era da mesma categoria daquela que eram recebidos e aceitos pelos judeus.
Orígenes e Epifanio também testemunharam que os judeus haviam rejeitado certos livros apócrifos. Orígenes escreveu que os judeus tinham pouca consideração por Judite e Tobias, nunca aceitando eles como canônicos, e Epifanio declarou que eles haviam rejeitado Eclesiasticos, Sabedoria, Baruque e a Epístola de Jeremias. 
Eusébio citando Orígenes declara: "Em sua exposição do primeiro Salmo ele dá um catálogo dos livros nas Sagradas Escrituras do Antigo Testamento, da seguinte maneira: "Mas deve-se observar que os livros canônicos, conforme transmitidos pelos hebreus, são vinte e dois, de acordo com o número das letras em seu alfabeto". Após algumas outras observações, acrescenta: "Esses vinte e dois livros, de acordo com os hebreus, são os seguintes: 'Aquele chamado Gênesis, mas pelos hebreus, de acordo com o início do livro, Bresith, que significa no início. Êxodo, Walesmoth,' que significa, esses são seus nomes. Levítico, Waikra, e ele chamou. Números, Anmesphekodlim. Deuteronômio, Elle haddabarim, ou seja, essas são as palavras. Jesus, filho de Nave, em hebraico, Josué hen Num. Juízes e Rute em um livro; com o hebraico que chamam Sophetim. Dos Reis, o primeiro e o segundo, um livro, com eles chamado Samuel, o escolhido de Deus. O terceiro e o quarto de Reis, também em um livro com eles, chamados Wahammelech Dabid2 que significa e rei Davi. O primeiro e o segundo livro de Paralipomena, contido em um volume com eles e chamados Dibre Hamaim, que significam as palavras, isto é, os registros dos dias. O primeiro e o segundo de Esdras, em um, chamados Ezra, isto é, um assistente. O livro de Salmos, sepher Thehillim. Os Provérbios de Salomão, Misloth, Eclesiastes, Coheleth. O Cântico dos Cânticos, Sir Hasirim. Isaías, Iesaia. Jeremias, com Lamentações, e sua Epístola, em um, Jeremiah. Daniel, Daniel. Ezequiel, Jeezkel. Jó, Job. Ester, também com os hebreus, Ester. Além desses há também Macabeus, que são inscritos Sarbeth sarbane el. Esses, portanto, são os livros que Orígenes menciona no livro supracitado (Salmos)." (Histórica Eclesiástica - Eusébio de Cesaréia Livro VI, 25) 

Objeções quanto ao cânon judaico 

Os apologistas Católicos contestam essas conclusões com respeito à estrutura e número de livros no cânon em três pontos fundamentais. Primeiramente, eles reclamam que o uso da Septuaginta por alguns dos Judeus sugere que eles tinham um cânon não fixo. Eles afirmam que embora os Judeus da palestina fossem mais conservadores, os Judeus de Alexandria não eram e possuiam um cânon mais largo que incluia os apocrifos. Dizem que pelo fato da septuaginta ter originado em Alexandria incluindo os apócrifos e foi a Bíblia comumente utilizada por Jesus e os escritores neotestamentario, eles devem ter citado estes livros também. Um outro argumento usado largamente por eles é o Conselho de Jamnia, composto de anciões judaicos depois da queda de Jerusalem em 70 A.D.. Alí, dizem eles, foi estabelecido a condição canonica do VT. Com isso eles querem provar que o cânon palestinense não era fechado ou fixo até então. E por último os católicos alegam que os essênios usavam um cânon mais extenso que o palestinense. Iremos logo abaixo responder cada uma dessas objeções.
O maior problema com a teoria do cânon Alexandrino é que não há nenhuma lista ou coleções de livros ou testemunhas para nos dizer quais livros compunham de fato esse cânon. Ninguém sabe quais livros foram incluídos de fato na Septuaginta. Nada sabemos desta tradução antes da era cristã. O manuscrito mais antigo que trazem os apócrifos data do 4º século d.C. Outro problema com a teoria do cânon Alexandrino é que isto não prova de maneira conclusiva que os judeus Alexandrinos ou os outros judeus da dispersão adotaram um em detrimento do outro. Além disso, não há provas concretas de dois cânones diferentes sendo usados pelos judeus. Não há de se supor que os judeus alexandrinos não tinham por canônicos somente os 22 ou 24 livros usados pelos judeus palestinenses. Apesar de haver diferenças entre a cultura do judeu helenístico e o da palestina, não há nada que prova que essa diferença afetou o cânon. Tanto é que nem Josefo ou Filo, sendo judeus helenistas que falavam o grego e, portanto tiveram contato com a Septuaginta, citaram os livros apócrifos apesar de terem citado os 22 livros canônicos do judaísmo tradicional. 

O Concílio de Jamnia
Freqüentemente os livros católicos levanta a objeção de que o Concilio de Jamnia decidiu a fixação do cânon hebraico. Conseqüentemente, antes desse Concílio o cânon judaico ainda estava aberto. Historicamente, havia alguns poucos livros que foi o centro de debate dentro do judaísmo. Eram Ezequiel, Provérbios, Eclesiastes, Cantares e Ester. Mas não se segue que porque havia debates em torno deles, que não faziam parte do cânon judaico, estando o cânon ainda aberto. A questão não girava em torno se estes livros deveriam entrar no cânon ou não, mas se eles deveriam permanecer canônicos. Nunca houve qualquer menção sobre acrescentar livros ao cânon, principalmente os apócrifos. 
Aliás, ressalta-se que o termo Sínodo ou Concílio é inapropriado. A academia de Jamnia, estabelecida pelo rabino Johanan ben Zakkai antes da queda de Jerusalém em 70 d.C., era ao mesmo tempo uma universidade e um centro legislativo.
No que diz respeito aos livros disputados, a discussão foi confinada à pergunta se Eclesiastes e Cantares (ou possivelmente só Eclesiastes) eram inspirados.
A decisão tomada por aqueles rabinos não foi considerada de grande importância, pois algumas vozes discordantes continuou a ecoar por todo o século II.
Eles não mudaram em nada a condição canônica daqueles livros ou de quaisquer outros. Não foi introduzida nenhuma inovação, permanecendo a tradição judaica sobre o cânon amesma de sempre. Prova disso é a tradução de Áquila (O VT do hebraico para o grego) feita muito tempo depois, incluindo estes cinco livros debatidos e não aceitando nenhum dos apócrifos.
A teoria que afirma que o cânon foi fechado em Jamnia é insustentável pois nenhum dos apócrifos foi sequer mencionado. 
Porque esses livros haviam sido rejeitados?
Alguns questionaram-nos por diversos motivos:
Cantares: Alguns achavam este livro sensual demais;

Eclesiastes: Alguns o consideravam cético demais;

Éster: A objeção era a ausência do nome de Deus, por isso alguns questionavam sua inspiração;

Ezequiel: alguns estudiosos hebreus achavam que ele não condizia com a lei mosaica que era praticamente um padrão para aferir a inspiração e conseqüentemente sua canonicidade;

Provérbios: A objeção contra esse livro partia do fato de parecer contraditório (ex, Pv. 26.4,5)

Os Essênios

Os Essênios foi uma corrente judaica que havia se separado do judaísmo tradicional. Os escritos, conhecidos como rolos do mar morto, desse povo foram descobertos nas cavernas de Qumran perto do mar morto. Eles pareciam provar que havia uma categoria mais longa de livros que os vinte e dois ou vinte e quatro do cânon judaico tradicional, sugerindo para alguns que o cânon não havia sido fechado entre os judeus da Palestina. As descobertas dos rolos do mar morto demonstram que havia muitas outras literaturas religiosas junto com os 22 livros canônicos dos judeus. Entretanto, isto não prova que eles aprovavam um cânon mais extenso. É certo que os essênios produziram uma considerável quantidade de escritos pseudepígrafos apocalíptico, mas eles não consideravam esses livros inspirados. Eles foram estimados como interpretações autorizadas dos livros canônicos, mas nunca foram tomados como Escrituras Sagradas. A obra pseudepígrafo Jubileu cita o número exato do cânon palestinense, isto é, 22 os mesmos atestados posteriormente por Filo, Josefo e Jerônimo. Isto prova que os essênios tinham o mesmo cânon que os judeus tradicionais. Apesar de haver discordâncias quanto a interpretação no judaísmo, não havia, entretanto discordância quanto ao cânon. Essênios, Fariseus e Saduceus parecem estar de acordo quanto a isso.

O NT cita os apócrifos?
Alguns objetam dizendo que há muitas referências feitas pelos escritores do NT aos apócrifos, e, portanto, nós não podemos assegurar que Jesus de fato aceitava o cânon palestinense. As provas oferecidas para isto geralmente são as citações listadas pela edição do NT grego Nestle-aland que inclui um apêndice de supostas referências e alusões aos apócrifos e pseudepígrafos no NT. Entretanto, a ilegitimidade deste apêndice torna-se patente quando algumas destas alusões são examinadas. Por Exemplo, alega-se que a referencia de Mateus 4:4 é uma alusão ao livro apócrifo Sabedoria de Salomão 16:26, mas isto nada mais é que uma clara citação direta de Deuteronômio 8:3. Também é dito que Mateus 4:15 é uma alusão a 1 Macabeus 5:15, mas o verso é uma citação direta de Isaias 9:1. Dizem que Hebreus 11:35 é uma alusão a II Macabeus 7.12, mas parece ser mais uma referência a I Reis 17.22. Quanto aos pseudepígrafos as únicas alusões certas é o Livro de Enoque 1.9 em Judas 14.
O que acontece é que tais alusões que parece ser uma citação direta é na verdade apenas semelhanças.
É embaraçoso os católicos romanos lidar com o fato de que não há prova alguma de Jesus ou os escritores do NT citando os apócrifos. Dificilmente essa omissão poderia ser acidental se eles considerassem tais livros canônicos. Também acrescenta-se que seria muito estranho eles citarem obras apócrifas ou pseudepígrafas tais como Assunção de Moisés e o Livro de Enoque (Judas 7,14), e deixarem de citar nominalmente 14 ou 15 livros encontrados na Septuaginta supostamente considerados canônicos. 

Seria este um argumento do silêncio?
Os católicos rebatem a essa resposta alegando que isto é um argumento do silêncio. Alguns refutam a omissão dos apócrifos dizendo que nós poderíamos usar o mesmo critério de avaliação quanto a alguns livros do VT que não foram citados no NT tais como Juizes, Crônicas, Ester, Cantares. Eles também não poderiam fazer parte do cânon visto por este prisma, dizem eles.
Mas este argumento não procede porque não há paralelo real entre a falta de alusão a livros que certamente são canônicos e a falta de alusão aos apócrifos. Como nós temos visto, o cânon do VT já estava bem estabelecido na época de Jesus. O próprio Jesus menciona sua tripla divisão e Josefo nos conta que aquelas três divisões perfaziam 22 livros, número este confirmado por muitas outras fontes históricas. Além disso, não há absolutamente nenhuma evidência que qualquer dos escritos apócrifos foi alguma vez aceito como canônicos pelos Judeus. Alguns dos livros apócrifos eliminam eles mesmos da condição de canônicos como Eclesiástico e I Macabeus. Os pais da Igreja primitiva afirmavam que os judeus não aceitavam os apócrifos como canônicos. Assim, a falta de alusão para alguns livros do VT não tem o mesmo peso quanto a mesma falta de alusão aos apócrifos católicos pelo fato de estes livros já fazerem parte do cânon judaico sob as categorias gerais de Leis, Profetas e escritos que totalizavam 22 livros apenas. Paulo nos informa que aos judeus foram confiados os "oráculos de Deus". O fato dos judeus terem rejeitado a Jesus não minimiza o fato de eles serem os guardiões do cânon.

... todos os anjos de Deus o adorem..

autô pántes ággeloi Theoû" como citação Livre?
O Teologo R .N CHAMPLIN Ph.D na sua obra O novo Testamento interpreatdo verso por verso diz que Hb 1 .6 É Uma outra citação livre do Antido Testamento. Ele faz o seguinte comentário:

> ... todos os anjos de Deus o adorem... Essa citação foi
extraida de Dt 32 :43, segundo a versão da Septuaginta,
evidentemente em combinação com o Salmo 97:7.O versículo não se
encontra no original Hebraico ,no livro de Dt .Além disso , na
Septuaginta não há palavra <<anjo>>, e sim << filhos>>; mas isso
poderia indicar anjos, os quais são chamados de filhos , conforme
se observa no livro de Jó 1:6:2:1e 38:7.Justino Marti
(Dial.130,pág222) cita o versiculo conforme é apresentado aqui.Já a
Septuaginta diz anjos no Salmo 97:7.Entretanto, o original Hebraico
diz deuses (helochim). É possível que o autor tivesse citado de
memória , assim misturando as duas referências.Notemos a maneira
livre de citação e aplicação das fontes informativas: e nisso ele
apenas copia aos rabinos , conforme era o método de Filo.
>
-----


Hb 1,6: Kai proskynesátosan autô pántes ággeloi Theoû.

Dt 32,43 (LXX) Kai enioschysátonsan autô pántes ággeloi Theoû.

Minha Pergunta:
Podemos considerar a citação "autô pántes ággeloi Theoû" como citação
livre? O que seria uma citação livre?

Abraços
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> 

autô pántes ággeloi Theoû" como citação Livre?
O Teologo R .N CHAMPLIN Ph.D na sua obra O novo Testamento interpreatdo verso por verso diz que Hb 1 .6 É Uma outra citação livre do Antido Testamento. Ele faz o seguinte comentário:

> ... todos os anjos de Deus o adorem... Essa citação foi
extraida de Dt 32 :43, segundo a versão da Septuaginta,
evidentemente em combinação com o Salmo 97:7.O versículo não se
encontra no original Hebraico ,no livro de Dt .Além disso , na
Septuaginta não há palavra <<anjo>>, e sim << filhos>>; mas isso
poderia indicar anjos, os quais são chamados de filhos , conforme
se observa no livro de Jó 1:6:2:1e 38:7.Justino Marti
(Dial.130,pág222) cita o versiculo conforme é apresentado aqui.Já a
Septuaginta diz anjos no Salmo 97:7.Entretanto, o original Hebraico
diz deuses (helochim). É possível que o autor tivesse citado de
memória , assim misturando as duas referências.Notemos a maneira
livre de citação e aplicação das fontes informativas: e nisso ele
apenas copia aos rabinos , conforme era o método de Filo.
>
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Hb 1,6: Kai proskynesátosan autô pántes ággeloi Theoû.

Dt 32,43 (LXX) Kai enioschysátonsan autô pántes ággeloi Theoû.

Minha Pergunta:
Podemos considerar a citação "autô pántes ággeloi Theoû" como citação
livre? O que seria uma citação livre?

Abraços
Citações, Alusões e Ecos do Tanach no NT
...

Cumpre-nos entender a natureza das citações, alusões ou ecos do Tanach no NT:

Disse o prof. Carl J. Bosma, em The Challenge of Reading the 'Gospel' of Isaiah for Preaching", Calvin theological Journal 2004, p. 13:

"Toda tradução é uma interpretação... Para nossos propósitos, é importante observar que a Septuaginta contém traduções que representam interpretações teológicas distintas. Acreditamos que o pregador cristão deve ter consciência destas interpretações porque a Septuaginta constituía, para todos os efeitos práticos, a Bíblia da igreja primitiva. Por esta razão, a maior parte das citações de texto de Isaías no Novo Testamento é baseada na Septuaginta. Como resultado, várias das interpretações distintas da Septuaginta entraram no Novo Testamento."

Jobes e Silva dão valiosas informações sobre a LXX:

“Depois que o Oriente Próximo foi conquistado por Alexandre o Grande (ca. 333 A.E.C.), o povo judeu ficou sob a influência da cultura helenística. Seus valores e práticas religiosos colidiram com as práticas, filosofias e idioma gregos. Da mesma maneira como hoje a maioria dos judeus vive fora de Israel, assim era durante o período helenístico. Porque via de regra os judeus da Diáspora (Dispersão) que se espalharam ao longo do Mediterrâneo já não falavam o hebraico, eles precisaram traduzir suas Escrituras Sagradas em grego, que tinha se tornado a língua franca do mundo helenístico. Assim, a versão grega da Bíblia Hebraica, agora conhecida como a Septuaginta, tornou-se a Bíblia das comunidades judias que falavam grego na Diáspora. Juntamente com o Novo Testamento grego, ela se tornaria a Bíblia da maioria dos cristãos durante os primeiros séculos da igreja. A versão grega permanece até hoje como o texto canônico para a tradição Cristã Ortodoxa, que remonta sua herança aos cristãos primitivos de fala grega.”

Indico:

BEALE, G. K. (ED.) The Right Doctrine form the Wrong Text? Essays on the Use of the Old Testament in the New. Michigan: Baker, 1994.
Commentary on the New Testament Use of the Old
....

Vem aí o Commentary on teh New Testament Use of the Old Testament, cujos editores são Gregory Beale e Donald Carson.
A data de lançamento prevista pela editora Baker Academic é 1o. de Novembro de 2007. Esta será um "must read" sobre a questão das citações, alusões e ecos do Antigo Testamento no Novo Testamento, como também um tratamento exaustivo desses usos do AT feito pelos autores do NT.

Apesar de achar interessante as colocações feitas pelo Champlin e a análise feita pelo Gyordano, penso em propor uma outra solução para a questão.


O texto grego de Hb 1.6 diz:

6
ταν δ πλιν εσαγγ τν πρωττοκον ες τν οκουμνην, λγει,

Κα προσκυνηστωσαν ατ πντες γγελοι θεο.

A princípio, há muitas questões exegéticas que precisam ser consideradas antes de entrarmos na questão da fonte da citação feita pelo autor sagrado. Que a superiodade do Filho em relação aos anjos é a proposta teológica da passagem é uma conclusão sem disputoa. Porém, pelo menos três questões são cruciais, pois demandam muitas decisões exegéticas do intérprete:


1) Que significado devemos atribuir a π
λιν e a que devemos conectá-lo? Devemos ligá-lo a εσαγγ ou entendê-lo apenas como um conectivo?

2) Qual o significado do aoristo subjuntivo em ε
σαγγ ? Como solucionar a referência temporal ambígua, ou seja, quando acontece o fato de εσαγγ τν πρωττοκον ες τν οκουμνην ?

3) Qual o sentido de πρωτ
τοκον e οκουμνην, visto que estas palavras são chaves para a solução de 1 e 2 ?

Só perguntinhas simples, não é mesmo?

3) a. Hb
2.5 torna-se importante para resolver qual o referente de οκουμνην, pois usa οκουμνην fazendo referência anafórica (para trás) ao mesmo, o que o pode vincular perfeitamente a Hb 1.6 e dar a esta palavra o sentido de "mundo (celestial)". b. O sentido de πρωττοκον não pode prescindir da consideração de Sl 89.27 (Sl 88.28 LXX), associados com Sl 2 e 2Sm 7, citados em Hb 1.5. Mais luz surge ao projetarmos Hb 1.6 contra as passagens:
Cont...

Dt 6.10, 11.29 e Êx 4.11 (na LXX). Perceba a similaridade de Dt 6.10 e o paralelismo entre σε e πρωτ
τοκον, o que sugere uma permuta pela consideração da tradição de Israel ser o primogênito de Yahweh. Os salmos enfatizam uma elevação suprema do πρωττοκον e as outras passagens sugerem a posição suprema de Israel, de modo que a posição do πρωττοκον é prefigurada pela posição de Israel. São propostas que fazem sentido.

2) Daí a introdução (ε
σαγγ) τν πρωττοκον ες τν οκουμνην, aludiria à ascenção, quando outra vez o πρωττοκον retorna ao lugar de onde viera e implica em προσκυνηστωσαν ατ πντες γγελοι θεο, adoração por parte dos anjos de Deus.

1) Assim, π
λιν, pode ser considerado como conectivo apenas, podendo ter uma força continuativa ou medianamente adversativa, por conta de δ.

Isto nos possibilitaria a seguinte tradução:

"E de novo, quando introduz o primogênito no mundo (celestial), ele diz: 'Que todos os anjos de Deus o adorem'"

Esta seria minha proposta de análise de Hb 1.6 do ponto de vista exegético, ficando apenas a última questão a ser respondida. Poderíamos apresentar as seguintes possibilidades:

1) Se a Bíblia da igreja primitiva era a Septuaginta, e esta tradução de Dt 32.43 traz a expressão: κα
προσκυνησάτωσαν ατ πάντες υο θεο, será que o autor sagrado se confundiu e fez uma citação errônea ?

2) Será que ele fez uma conflação,seguindo a teoria de Hort, e gerou a citação Κα
προσκυνηστωσαν ατ πντες γγελοι θεο proveniente da combinação de partes de Dt 32.43 na LXX ou de outros versos ?

3) Ou Poderia o autor sagrado ter citado uma outra fonte que possuía em seus dias a leitura Κα
προσκυνηστωσαν ατ πντες γγελοι θεο ?

Eu
sou favorável à terceira opção. Por que? Porque aqui temos de fato uma citação do Cântico de Moisés, encontrado originalmente em Dt 32. Segundo William Lane, "Subsequëntemente esta passagem bem conhecida foi removida do seu contexto em Deuteronômio e adotada para uso litúrgico no Templo, na ...

Cont...
sinagoga e na igreja." (LANE, WilliamL. Word Biblical Commentary, 47a, Hebrews 1-8. Dallas: Word Books).

Prossegue Lane: "A citação de Hebreus corresponde exatamente a Dt 32.43 na tradução provida nas Odes: Κα προσκυνηστωσαν ατ πντες γγελοι θεο, 'Que todos os anjos de Deus o adorem'" (Ode 2.43b).

Na versão mais antiga, tradução LXX, o sujeito do mandamento não é ο
γγελοι, mas υο θεο (filhos de Deus). Ao que tudo indica, o autor parece ter selecionado a versão das Odes, que era de uso comum entre seus leitores, como também há testemunho de que essa tradição já era bem popular na época dos Macabeus (4 Macabeus 18.6, 9, 18, 19). O Códex A, 55 e Justino (Diálogos 130) dão testemunho dessa tradição litúrgica.Vê-se a proposta teológica clara dessa escolha pelo escritor de Hebreus, uma vez que ela é imediatamente aplicável à subordinação dos anjos à dignidade transcendente do Filho.

Esta terceira solução que é uma proposta de explicação da citação de Hb 1.6, a meu ver, responde melhor a questão, evitando as propostas de solução que admitem erro (do autor ou dos copistas) ou uma conflação. De fato, Champlin sinalizou o caminho, mas faltou alguns dados na sua pesquisa. Valeu o esforço do Gyordano.


Assim diz a Ode 2.43:

ε
φράνθητε, ορανοί, μα ατ,
κα
προσκυνησάτωσαν ατ πάντες ο γγελοι θεο·
ε
φράνθητε, θνη, μετ το λαο ατο,
κα
νισχυσάτωσαν ατ πάντες υο θεο·
τι τ αμα τν υἱῶν ατο κδικεται,
κα
κδικήσει κα νταποδώσει δίκην τος χθρος·
κα
τος μισοσιν νταποδώσει,
κα
κκαθαριε Κύριος τν γν το λαο ατο.

Regozijai, vós céus, com ele,
Que todos os anjos de Deus o adorem.
Regozijai vós gentios com seu povo,
Que todos os filhos de Deus fortaleçam-se nele.
Porque ele vingará o sangue dos seus filhos,
e trará vin
gança e reconpensa justa a seus inimigos,
e galardoará aqueles que o odeiam,
e o Senhor purificara a terra de seu povo.

Para um acesso às Odes, pode acessar:

www.katapi.org.uk/katapiNSBunix/NSBPsgsByB.php?B=120
sinagoga e na igreja." (LANE, WilliamL. Word Biblical Commentary, 47a, Hebrews 1-8. Dallas: Word Books).

Prossegue Lane: "A citação de Hebreus corresponde exatamente a Dt 32.43 na tradução provida nas Odes: Κα
προσκυνηστωσαν ατ πντες γγελοι θεο, 'Que todos os anjos de Deus o adorem'" (Ode 2.43b).

Na versão mais antiga, tradução LXX, o sujeito do mandamento não é ο
γγελοι, mas υο θεο (filhos de Deus). Ao que tudo indica, o autor parece ter selecionado a versão das Odes, que era de uso comum entre seus leitores, como também há testemunho de que essa tradição já era bem popular na época dos Macabeus (4 Macabeus 18.6, 9, 18, 19). O Códex A, 55 e Justino (Diálogos 130) dão testemunho dessa tradição litúrgica.Vê-se a proposta teológica clara dessa escolha pelo escritor de Hebreus, uma vez que ela é imediatamente aplicável à subordinação dos anjos à dignidade transcendente do Filho.

Esta terceira solução que é uma proposta de explicação da citação de Hb 1.6, a meu ver, responde melhor a questão, evitando as propostas de solução que admitem erro (do autor ou dos copistas) ou uma conflação. De fato, Champlin sinalizou o caminho, mas faltou alguns dados na sua pesquisa. Valeu o esforço do Gyordano.


Assim diz a Ode 2.43:

ε
φράνθητε, ορανοί, μα ατ,
κα
προσκυνησάτωσαν ατ πάντες ο γγελοι θεο·
ε
φράνθητε, θνη, μετ το λαο ατο,
κα
νισχυσάτωσαν ατ πάντες υο θεο·
τι τ αμα τν υἱῶν ατο κδικεται,
κα
κδικήσει κα νταποδώσει δίκην τος χθρος·
κα
τος μισοσιν νταποδώσει,
κα
κκαθαριε Κύριος τν γν το λαο ατο.

Regozijai, vós céus, com ele,
Que todos os anjos de Deus o adorem.
Regozijai vós gentios com seu povo,
Que todos os filhos de Deus fortaleçam-se nele.
Porque ele vingará o sangue dos seus filhos,
e trará vin
gança e reconpensa justa a seus inimigos,
e galardoará aqueles que o odeiam,
e o Senhor purificara a terra de seu povo.

Para um acesso às Odes, pode acessar:

www.katapi.org.uk/katapiNSBunix/NSBPsgsByB.php?B=120

αγγελοι θεου = anjos de D'us

Creio que tem razão, porém tanto na LXX em Deuteronômio 32:43 como na Ode 2:43b consta υιοι θεου (filhos de D'us) e não αγγελοι θεου (anjos de D'us), pois esta última expressão só se acha no verso "d", confira nos links abaixo:

Ode (original grego e também em inglês):

http://www.katapi.org.uk/katapiNSBunix/Lxx/LxxByBC.php?GB=5&GC=32

LXX:

http://www.bibleserver.com/index.php

Todavia eu gostaria saber onde encontrar o texto grego que postou acima, pois nele a expressão αγγελοι θεου (anjos de D'us) esta no verso "b"
e não no "d", conforme pode constatar? Seria esse então o texto antigo das Odes ?

Um forte abraço

www.zhubert.com

Basta digitar Odes 2:43. 

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O Nascimento do Messias

O Nascimento do Messias


No dia 19 de novembro de 1997 aconteceu algo extraordinário: Bobbi McCaughey, da cidade de Carlisle, Iowa (EUA), deu à luz a sete bebês saudáveis. Com a notícia do nascimento bem sucedido dos sétuplos, o mundo pareceu fazer uma pausa para refletir, maravilhado e assombrado. Paula Mahone, a médica que fez o parto, expressou o que estava no coração de cada um: “Esta é uma situação singular”, disse ela. “Eu consideraria isto um milagre.”

Há dois mil anos, ocorreu um nascimento ainda mais extraordinário, singular e miraculoso. Esse não produziu as manchetes que os sétuplos da família McCaughey provocaram. Na verdade, relativamente poucas pessoas souberam que ele havia ocorrido. No entanto, os efeitos desse evento não apenas dividiram nosso tempo em duas partes – a.C. e d.C. –, como também estabeleceram para sempre um testemunho vivo do amor e da fidelidade de Deus. Naquela noite nasceu o Messias. O nascimento de Jesus de Nazaré não foi prematuro, nem tardio. Ele nasceu no tempo exato, de acordo com a agenda profética de Deus. Não se tratou de um acidente, ou de um golpe do destino.  Tudo foi planejado, predito e prometido com centenas de anos de antecedência. O nascimento do Messias foi verdadeiramente uma vinda abençoada.

Uma pessoa abençoada
A identidade e a linhagem do Messias não foram deixadas ao acaso, pois Deus não queria nenhuma confusão sobre o assunto. Desde o começo, Ele foi revelando progressivamente quem viria a ser o Seu Ungido.

Depois que Adão e Eva pecaram, Deus amaldiçoou a serpente. Dentro dessa maldição estava a promessa de Alguém que viria e esmagaria a cabeça da serpente. Esse Prometido viria da descendência da mulher e seria um homem (Gn 3.15). Isso foi reiterado mais tarde, na promessa dada por intermédio do profeta Isaías: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu” (Is 9.6). Em outras palavras, o Messias não seria um anjo, um animal, ou alguma criatura incomum. Tampouco o Messias seria uma mulher. Deus prometeu levantar um ser humano, um homem, que um dia feriria mortalmente “a antiga serpente, que se chama Diabo e Satanás” (Ap 12.9).

As circunstâncias miraculosas cercando Seu nascimento dariam indicações de Sua natureza divina. Mais uma vez, por meio de Isaías, Deus fez uma promessa. À casa de Davi não seria dado um sinal de sua própria escolha, mas um sinal determinado por Deus: “eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel [literalmente: Deus conosco]” (Is 7.14).

Embora muitos debates tenham focalizado a questão se o termo hebraico “almah” deveria ser traduzido como “virgem” ou “mulher jovem”, os tradutores judaicos da Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento) escolheram o termo grego “parthenos”, para indicar claramente o que entendiam que a palavra hebraica deveria significar, ou seja, “virgem”. Além disso, “parthenos” foi a palavra empregada por Mateus em seu evangelho, quando citou essa passagem de Isaías (Mt 1.23). Conseqüentemente, o sinal miraculoso que Deus iria conceder seria o fato de uma virgem conceber e dar à luz um filho.

Além disso, conforme indicado por Seu nome, esse Filho seria de natureza divina. Na tradição judaica, ensinava-se que nos tempos primitivos da história humana, pela ministração do Espírito Santo, as pessoas poderiam dirigir o futuro de seus filhos por intermédio dos nomes que lhes dessem (Gênesis Rabbah 37.7). Também era prática comum dar um nome à criança de acordo com um pensamento ou conceito indicativo da sua natureza. Por isso, quão significativo é que Deus, quando concedeu o sinal especial do Filho nascendo de uma virgem, deu-Lhe, Ele mesmo, um nome que revelava não apenas o que esse Filho faria, mas também o que Ele seria (“Emanuel”). Este menino especial seria Deus e Ele estaria conosco.

Estreitando ainda mais a árvore genealógica do Messias, Deus planejou que Ele viesse de uma nação específica – Israel (Gn 22.18; compare Gl 3.16); de uma tribo específica de Israel – Judá (Gn 49.10); e de uma família específica de Judá – a família do rei Davi (Jr 23.5). Portanto, esses eram os requisitos genealógicos e de nascimento para qualquer um que pretendesse reivindicar ser o Messias.

Uma época abençoada
Os rabinos antigos pronunciavam uma maldição sobre qualquer pessoa que tentasse calcular a época da chegada do Messias (Sanhedrin 97b). Eles temiam que o povo perderia a fé se Ele não aparecesse na data calculada. Apesar disso, a época da primeira vinda do Messias é descrita em Daniel 9.24-27: “Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade, para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniqüidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia e para ungir o Santo dos Santos. Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Ungido, ao Príncipe, sete semanas e sessenta e duas semanas; as praças e e as circunvalações se reedificarão, mas em tempos angustiosos. Depois das sessenta e duas semanas será morto (a Ed. Rev. e Corrigida diz: “tirado”) o Ungido e já não estará; e o povo de um príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será num dilúvio, e até ao fim haverá guerra; desolações são determinadas.”

Nessa passagem, o anjo Gabriel informa ao profeta Daniel que “setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade”. Essas setenta semanas são semanas de sete anos cada, e não de sete dias – um total de 490 anos. O ponto de referência para iniciar a contagem é este: “desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém”. O único decreto registrado nas Escrituras que encaixa historicamente com essa profecia é aquele baixado pelo rei Artaxerxes, em Neemias 2. Esse decreto, que ordenava a reconstrução das portas e dos muros de Jerusalém, foi editado no vigésimo ano do rei Artaxerxes – 445 a.C.

De acordo com o anjo Gabriel, em Daniel 9.25, desta data em diante, um período de 69 semanas, ou 483 anos, se encerraria na época em que “o Ungido, o Príncipe” estaria presente. Por meio de cuidadosos cálculos (empregando anos proféticos de 360 dias), eruditos bíblicos chegaram à conclusão de que as 69 semanas terminaram em torno do ano 32 d.C.[1]

Embora tenha havido debates a respeito da data precisa, não pode ser questionado que, de acordo com essa passagem, o Messias tinha que chegar e “já não estar” (v. 26) antes da destruição da cidade e do santuário (templo). Como Daniel recebeu essa profecia algum tempo após a primeira destruição de Jerusalém e do templo, em 586 a.C., essa segunda destruição tem de referir-se àquela efetuada pelo exército romano, em 70 d.C. Portanto, o Messias deveria chegar 483 anos depois de 445 a.C. e antes de 70 d.C.

Um lugar abençoado
Miquéias 5.2 (5.1 na Bíblia judaica) é uma promessa acerca da qual há a maior unanimidade entre eruditos cristãos e antigos estudiosos judeus – concorda-se que se trata de uma profecia messiânica: “E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”.

De acordo com essa promessa, a pequena vila de Belém-Efrata seria o local de onde viria o Messias. Numerosas fontes judaicas antigas concordam com essa interpretação (Targum Jonathan sobre Miquéias 5.1; Lamentações Rabbah 1.16, parágrafo 51). Inclusive nos dias de Herodes, o Grande, sábios judeus compreendiam Miquéias 5.2 como sendo uma referência ao lugar de nascimento do Messias (Mt 2.4-6).

É significativo que o profeta Miquéias tenha identificado claramente qual Belém se tinha em vista, pois havia duas localidades chamadas Belém. Uma se encontrava no território dado à tribo de Zebulom, no norte (Js 19.15), enquanto a outra se localizava no território dado à tribo de Judá. Efrata era o nome original dessa segunda Belém. Ela distava aproximadamente oito quilômetros de Jerusalém para o sul e foi o lugar onde Davi nasceu e foi coroado rei.

Correspondendo à localização messiânica de Belém, existe um lugar chamado “torre do rebanho”. Nos dias bíblicos, os pastores muitas vezes vigiavam seus rebanhos de uma torre especialmente construída para isso. De lá, podiam observar a aproximação de bandidos ou animais selvagens. Miquéias 4.8 faz referência a essa torre: “A ti, ó torre do rebanho, monte da filha de Sião, a ti virá; sim, virá o primeiro domínio, o reino da filha de Jerusalém”. Uma antiga interpretação judaica considerava esse versículo como sendo messiânico e traduzia a expressão “torre do rebanho” por “Messias de Israel” (Targum Jonathan).

A única outra referência à “torre do rebanho” encontra-se em Gênesis 35.21: “Então, partiu Israel e armou a sua tenda além da torre de Éder [literalmente, “rebanho”]”. Isso ocorreu logo após a morte de Raquel, no caminho para Efrata, ou Belém (Gn 35.19). Assim, essa “torre do rebanho” encontrava-se próxima de Belém. Como resultado da localização da torre e da interpretação de Miquéias 4.8, outro Targum judaico traduz Gênesis 35.21 da seguinte forma: “Jacó partiu e armou suas tendas além da torre do rebanho, o lugar de onde o Rei Messias se revelará no fim dos dias” (Targum Pseudo-Jonathan).

Portanto, o lugar abençoado do qual se originaria ou nasceria o Messias era Belém-Efrata.

Um nascimento abençoado
Na época em que o Messias chegou, a Palavra de Deus havia detalhado suficientemente como Ele poderia ser reconhecido simplesmente em termos de Seu nascimento, para não mencionar as profecias concernentes a toda a Sua vida. Tal detalhamento aponta para Jesus de Nazaré.

Em primeiro lugar, Jesus possuía a linhagem física correta. Ele nasceu de uma mulher, Maria, cumprindo assim os requisitos de um ser humano, um homem, nascido de uma virgem (Lc 1.34-35). Com respeito à Sua divindade, muitas passagens das Escrituras confirmam Suas obras miraculosas e Sua confissão pessoal (por exemplo, Jo 10.30-33). Ele também foi judeu – Mateus 1 e Lucas 3.23-38 confirmam que Jesus de Nazaré foi “filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1.1).

Em segundo lugar, Jesus nasceu no tempo certo. Obviamente, Ele viveu após 445 a.C. e antes de 70 d.C. Durante Seu ministério, Ele pregou que “o tempo está cumprido” (Mc 1.15). Como mencionamos acima, os eruditos bíblicos calcularam que ao redor do ano 32 d.C. cumpriram-se os 483 anos da profecia de Daniel. Mais especificamente, acredita-se que eles se encerraram exatamente nos dias em que Jesus foi aclamado como Messias e entrou em Jerusalém montado num jumentinho. Nessa ocasião, Jesus parou repentinamente e chorou sobre Jerusalém. Ele exclamou: “Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos... porque não reconheceste a oportunidade da tua visitação” (Lc 19.42,44). A época da chegada do Messias havia sido proclamada pelo profeta Daniel. Mas os líderes judeus de então, representando a nação como um todo, não o reconheceram. Igualmente, em cumprimento da profecia de Daniel, Jesus foi “tirado” (Dn 9.26, Ed. Rev. e Corrigida), uma referência à Sua morte prematura por meio da crucificação. Até mesmo isso não ocorreu por acaso. A morte de Jesus tinha um propósito. Ele “a si mesmo se deu em resgate por todos: testemunho que se deve prestar em tempos oportunos” (1 Tm 2.6).

Em terceiro lugar, Jesus de Nazaré nasceu no lugar certo – Belém. Ele não nasceu na Belém vizinha de Nazaré, apesar de José e Maria viverem em Nazaré. Em vez disso, Ele nasceu na outra Belém, a Belém-Efrata. Deus, em Sua providência, fez com que o imperador romano Augusto decretasse que em todo o império deveria ser realizado um recenseamento. Isso exigia que todos os cidadãos retornassem às cidades de seus ancestrais. Por isso, José foi obrigado a fazer uma viagem longa e difícil a Belém, juntamente com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. Enquanto ainda estavam lá, Jesus, o Messias, nasceu, exatamente como Deus havia planejado e prometido (Lc 2.4,7).

Um outro aspecto interessante do nascimento de Jesus é que “havia, naquela mesma região, pastores que viviam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite” (Lc 2.8). Foi a esses pastores que a multidão de anjos proclamou o nascimento do Messias nas proximidades de Belém. Será que esses pastores se encontravam próximos da “torre do rebanho”, o lugar a partir do qual o Messias seria revelado?

A evidência confirma que Jesus de Nazaré foi a pessoa abençoada, nascida no tempo abençoado, no lugar abençoado. Como a identificação de um bebê, feita na maternidade, as marcas históricas identificadoras que envolvem Seu nascimento provam que, de fato, Sua vinda foi uma vinda abençoada.

Por ocasião do nascimento dos sétuplos da família McCaughey, foi dito que “o nascimento é apenas o começo da história, não o fim”. Com Jesus também é assim.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

EXEGESE DE ISAÍAS 7:14 - O EMANOEL PROMETIDO


EXEGESE DE  ISAÍAS  7:14 

 A  PROMESSA  A  RESPEITO  DE  EMANUEL

 Isaías é chamado pelos estudiosos como o maior dos profetas do Velho Testamento, o "rei de todos os profetas". Chega a ser cognominado "a águia entre os profetas" e o evangelista da antiga aliança. O significado do seu nome, em hebraico, é bem apropriado para o caráter de seus escritos "Yeshayahu", cujo sentido é = Yahweh é a salvação. 

Sua capacidade estilística é impressionante, seus recursos para criar figuras literárias nos enleva. Sabedores de que a maior parte do seu livro foi escrito em forma de poesia, para surpresa de alguns, ele é considerado o maior poeta do Velho Testamento.

Comentaristas na Introdução aos Profetas, da Bíblia de Jerusalém, o denominam de poeta genial. O brilho do estilo, a novidade das imagens fazem dele o grande clássico da Bíblia.

Para bem compreender o verso de Isa. 7:14, ele deve ser estudado em seu contexto histórico, em seu problema gramatical e em suas implicações teológicas.

I – Contexto Histórico

O livro de Isaías tem sido dividido por alguns em duas partes:

1º) Abrangendo 39 capítulos;

2º) Compreendendo os demais 27 capítulos.

A primeira parte está dividida em 5 seções.

Com o capítulo 7 começa a segunda seção, onde se descreve a aliança da Síria com o reino de Israel (Efraim) contra Judá, no reinado de Acaz. Se a cronologia nos informa que Acaz começou a reinar em 735 AC, estes eventos se realizaram em 734.

A Síria governada por Rezim, e Israel administrado por Peca, o perverso assassino do rei Pecaías, aliaram-se com o iníquo objetivo de subjugar o reino de Judá e obrigá-lo a cooperar com eles na campanha militar contra a poderosa e agressiva Assíria. Com a ameaça de um ataque iminente, o rei de Judá e o povo ficaram aterrorizados e cheios de grande perturbação.

Acaz, de personalidade tíbia e pusilânime, ferido em seu amor próprio devido à primeira derrota frente a Peca e Rezim, cometeu a insensatez pecaminosa de pedir auxílio ao rei assírio. Ainda mais, amedrontado, tomou a prata e o ouro da casa do Senhor, e os tesouros da casa do rei e os enviou a Tiglate-Pileser com a declaração vexatória: "Eu sou teu servo e teu filho; sobe e livra-me do poder do rei da Síria e do poder do rei de Israel, que se levantam contra mim", como nos relata II Reis 16:7-9. Diante desta situação aflitiva, Isaías recebeu de Deus a incumbência sagrada de procurar Acaz com alguns objetivos.

1º) Apresentar-lhe uma mensagem estimulativa da parte de Deus: "Acautela-te e aquieta-te, não temas nem desanime o teu coração". Isa. 7:4. Em outras palavras ele queria dizer: não há nenhuma necessidade para preocupação, já que numa elegante metáfora, ele compara os dois reis a pedaços de tições fumegantes, pois se outrora eram perigosos, agora seu poderio estava quase extinto. Em sua entrevista com Acaz, o profeta procurou animá-lo, transmitindo-lhe a seguinte mensagem: se depositasse confiança no Senhor haveria livramento. Rezim e Peca em breve desapareceriam como bolhas de sabão.

2º) Isaías, com seu acendrado espírito religioso, combateu tenazmente a aliança com poderes pagãos, porque previa os males que viriam para Acaz e para o povo de Deus.

A mensagem do profeta ao rei alarmado era de confiança em Deus, culminando com a declaração do verso 9: "se o não crerdes, certamente não permanecereis". Nesta afirmativa do profeta, há um notável trocadilho hebraico, que é difícil transmitir numa tradução.

Eis algumas tentativas para reproduzir o efeito original:

"Sem fé não há fixidez".

"Sem confiança forte não há forte de confiança".

"Sem confiança não há permanência".

As conseqüências de rejeitar a orientação divina são evidentes no relato sagrado:

Politicamente Acaz se vê transformado num simples vassalo da Assíria.

Na esfera religiosa, rejeitando a promessa de libertação que o mensageiro do Senhor lhe oferecera, entregou-se inteiramente ao paganismo. II Reis 16:10-18.

Tanto se afastou de Deus, que chegou a passar o seu filho pelo fogo, influenciando com seu comportamento negativo o declínio espiritual de todo o povo. Altares pagãos foram erigidos por toda a parte, inclusive no templo em Jerusalém, fazendo com que o culto ao verdadeiro Deus se extinguisse.

Quando Isaías viu, que tanto o rei quanto os seus subordinados, desprezaram a mensagem divina, ele silenciou por algum tempo o seu ministério público. 

3º) Sugeriu que Acaz pedisse um sinal como evidência de que estava diante de um verdadeiro profeta de Deus. Já que não crês nas palavras do profeta, pede um sinal, uma garantia ou evidência que te as segure que Deus cumprirá a promessa de salvar o Seu povo.

Acaz respondeu: "Não o pedirei nem tentarei ao Senhor". Isa. 7:12.

Sua declaração era uma saída hipócrita sob o pretexto de que guardava a lei. (Deut. 6:16)

Se tentar a Deus é pôr Deus em uma prova, o pedir o sinal que era oferecido por Ele não seria tentá-Lo.

A razão primordial para rejeitar o sinal, era que ele não estava disposto a submeter-se à vontade de Deus, ou estava receoso de que o obrigasse a alterar a política externa que adotara.

Diante da atitude de Acaz recusando-se a pedir um sinal, Isaías lhe diz que Deus lhe daria o sinal.

"Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e lhe chamara Emanuel". Isa. 7:14.

Este sinal dado por Deus é a demonstração mais convincente de Sua intervenção e direção na História.

No livro A Profecia de Isaías de A. R. Crabtree, pág, 157 há esta afirmação: "Talvez não haja outra profecia no Velho Testamento que tenha produzido mais perplexidade e mais discussão do que estes versículos sobre o sinal que Deus deu a Acaz".

Corrobora com esta afirmativa Albert Barnes em Notes on the Old Testament, vol. 8, pág. 157, ao declarar "... não existe nenhuma profecia no Velho Testamento da qual se tenha escrito tanto, e que tem produzido mais perplexidade entre os comentaristas do que esta".

Os versos 17 a 25 apresentam uma terrível descrição de como eles seriam assolados em virtude da rejeição do sinal.

II – O Problema Gramatical

Isaías 7:14 é uma passagem extremamente difícil de ser traduzida. Temos aqui um dos mais controvertidos problemas textuais de toda a Bíblia.

O pomo da discórdia se encontra na palavra "almah", que tem trazido para os intérpretes uma longa e complicada discussão.

Traduções da Bíblia como a Septuaginta, King James Version, Almeida tanto a Revista e Corrigida como a Atualizada a traduzem por "virgem". Outras mais fiéis ao original hebraico como a Revised Standard Version, a de Moffatt, New English Bible e A Bíblia de Jerusalém preferem traduzi-la por jovem ou mulher jovem. Diante destas declarações a primeira pergunta que se levanta é esta: qual é a tradução preferível para "almah"? Virgem ou jovem?

Afirmam alguns, peremptoriamente, – se os tradutores da Septuaginta traduziram a palavra "almah" para pavrdenov – a virgem, e se não podemos descrer do conhecimento que tinham do hebraico os que fizeram o trabalho, então não assiste nenhuma razão àqueles que insistem que em Isa. 7:14 o termo tem que ser traduzido para uma jovem na idade de se casar.

O traduzir de uma maneira ou de outra sempre cria problemas: Tradicionalmente sempre se defendeu a tradução para virgem, por ser aparentemente a única a predizer claramente o nascimento virginal de Cristo. Mas se esta passagem é uma profecia referente a uma criança que deveria nascer como sinal para o rei Acaz, a mãe desta criança não poderia ser virgem porque criaria um problema de ordem teológica. Sendo que outras traduções trazem "mulher jovem", exegetas intervêm declarando que este procedimento elimina uma doutrina fundamental da Bíblia, o maravilhoso nascimento virginal de Cristo.

O livro Problems in Bible Translation, nos informa que a palavra "almah" aparece nove vezes no Velho Testamento, mas que é difícil especificar exatamente o seu real significado. Conclui dizendo que "almah" designa simplesmente uma "mulher jovem" em idade de casamento, quer noiva ou não, casada ou não, virgem ou não". Pág. 168.

O vocábulo hebraico para virgem é "bethulah" que aparece 50 vezes no Velho Testamento.

C. G. Tuland, concluiu seu artigo no Ministério Adventista, março-abril de 1969, pág. 19, explicando Isa. 7:14, da seguinte maneira: "Portanto, não parece ser justificável traduzir "almah", "mulher jovem", em Isa. 7: 14, por virgem. A única tradução coerente é a da R.S.V.: "Eis que uma mulher jovem conceberá, e dará à luz um filho".

A. R. Crabtree, no livro A Profecia de Isaías, pág. 158, defende tese contrária, com bastante dogmatismo, ao afirmar que "almah" em Isa. 7:14 deve ser traduzida por virgem, havendo assim um nascimento milagroso no tempo de Isaías, semelhante ao de Cristo, sem se preocupar com o profundo problema teológico envolvido nesta interpretação.

Sendo que este mesmo autor declara que quase todas as palavras se usam em mais de um sentido, informando-nos também que a significação de qualquer palavra deve ser determinada pelo uso no contexto, pelo sentido com outras passagens bíblicas, e em relação com o ensino geral da Bíblia sobre o mesmo assunto, não seria melhor concluir que Isaías a empregou, no sinal para Acaz com o significado de jovem, e Mateus fazendo uma aplicação messiânica do mesmo verso usa a palavra parthenos ou virgem?

Quem seria a jovem de Isaías 7:14? Três possibilidades têm sido sugeridas:

1ª) Seria a própria esposa de Isaías;

2º) Outros advogam que esta jovem fosse a esposa do próprio rei Acaz, pois ele tinha nesse tempo 21 anos;

3º) Um terceiro grupo, menos numeroso, mas com possibilidades verossímeis, defende a tese de ser outra jovem da família real, bastante conhecida a eles, mas a nós desconhecida.

Pessoalmente, baseado no contexto bíblico (Is. 8:3), creio que a jovem era a própria esposa de Isaías. Conferindo Isaías 1:1 com 6:1 concluiremos que o profeta estava no início de seu ministério, que se estendeu por meio século após este evento.

III – Implicações Teológicas

A verdade do nascimento virginal de Cristo está implícita através das Escrituras, portanto não precisa ser confirmada por uma palavra hebraica de Isaías 7:14.

Se a tradução de "almah" por virgem, cria um problema de natureza teológica, por não poder ser aplicável no tempo de Isaías; outro problema nada inferior a este seria se Isaías houvesse usado a palavra "bethulah" para uma outra ocorrência além do nascimento virginal de Cristo.

Se os exegetas defendessem que Isaías 7:14 profetizava um nascimento virginal milagroso, teriam também de aceitar que esta criança teria a mesma natureza divino-humana e o mesmo poder que Jesus possuía.

Das muitas explicações propostas, visando solucionar o problema, o livro Problems in Bible Translation, pág. 151, destaca estas 4:

1º) Isaías 7:14 não constituía uma verdadeira profecia de eventos, quer no tempo de Cristo ou no de Isaías;

2º) Cumpriu-se de alguma maneira desconhecida nos dias de Isaías e não de outra forma;

3º) Apontava ao futuro exclusivamente para o nascimento de Cristo;

4º) Era uma profecia dupla, aplicável tanto aos dias de Isaías, quanto ao nascimento do Messias.

A primeira explicação é insustentável para quem acredita na inspiração das Escrituras.

O segundo ponto de vista nega a inspiração de Mateus.

A aceitação de que a alusão apontava unicamente para o nascimento de Cristo despreza completamente o contexto e o ambiente histórico de Isaías 7:14.

A quarta solução proposta é a única totalmente consistente, com o conceito de que tanto Mateus quanto Isaías foram inspirados.

O estudo atento do texto hebraico e das varias interpretações propostas, nos levam à conclusão de que em Isaías 7:14 temos uma profecia messiânica.

Este texto deve ser incluído entre as profecias messiânicas pelo princípio do duplo cumprimento comum a muitas profecias bíblicas, como nos confirmam os seguintes exemplos.

1º) A promessa feita a Abraão nos seus descendentes (Gên. 13:16; 15:5), e um descendente, que é Cristo (Gál. 3: 16).

2º) A profecia de Mateus 24, se cumpriu primeiramente na destruição de Jerusalém, no ano 70 da nossa era; mas, o seu cumprimento final será no fim do mundo.

Da mesma forma, a promessa a respeito de Emanuel, teve uma aplicação imediata e primária da libertação temporária de Judá nos dias de Acaz, mas depois de 730 anos, numa aplicação secundária de outro livramento do inimigo, através da encarnação de Cristo, iniciando assim o período da salvação espiritual e de paz com Deus.

O nome Emanuel, dado à criança dos dias de Isaías, foi mudado diante da recusa de Acaz de submeter-se a Deus. Isaías foi instruído a colocar na criança o nome de Maher - Shalal - Has - Baz.

A promessa a respeito de Emanuel poderia ser sintetizada nestas palavras: É uma promessa de plena e absoluta confiança, de que o mesmo Deus que não desampararia os seus filhos no tempo de Isaías. Ele através do nascimento de Cristo está conosco no eterno concerto da graça para nos salvar, jamais desamparando o Seu povo, antes protegendo-o e guardando-o para a glória futura.

Enfatizemos mais uma vez a idéia contida em Isaías 7:9: "Se o não crerdes, certamente, não permanecereis." Esta confiança absoluta, penhor da salvação (Is. 28:16) nos mostra que não podemos confiar em coisas ou em pessoas.

Que a promessa apresentada por Isaías a respeito de Emanuel – Deus conosco – esteja sempre conosco e que a transmitamos aos outros para sua e nossa salvação.

Extraído do Livro: "Leia e Compreenda melhor a Bíblia" de Pedro Apolinário
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